O pronampe é uma falácia do governo federal. Por quê?

Criado com o discurso de fortalecer os pequenos negócios brasileiros, o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte — PRONAMPE — foi apresentado pelo Governo Federal como uma solução de crédito acessível para micro e pequenas empresas enfrentarem dificuldades financeiras, ampliarem investimentos e preservarem empregos. Na teoria, a proposta parece justa, moderna e necessária. Mas, na prática, quando analisamos os critérios econômicos e financeiros do programa, percebemos uma profunda desigualdade estrutural que transforma o discurso oficial em uma grande contradição.

O governo afirma que o programa foi criado para apoiar os pequenos empreendedores. Entretanto, o próprio formato de concessão do crédito demonstra que os maiores acabam sendo mais beneficiados do que os menores.

O primeiro ponto questionável está justamente na forma de cálculo do crédito. O programa libera empréstimos equivalentes a até 30% do faturamento bruto do ano anterior da empresa. À primeira vista, parece coerente. Porém, quando se compara uma empresa que faturou R$ 100 mil no ano com outra que faturou R$ 1,5 milhão, percebe-se uma diferença brutal de capacidade financeira, estrutura operacional e poder de negociação.

Na prática, uma empresa menor recebe um valor extremamente limitado, insuficiente muitas vezes até para recompor capital de giro, pagar folha salarial ou reorganizar seu fluxo de caixa. Já empresas com faturamento mais elevado conseguem acessar volumes financeiros muito superiores, ampliando ainda mais sua vantagem competitiva no mercado.

Mas o problema não para por aí.

O aspecto mais injusto do programa está nas condições de pagamento. Empresas menores, que possuem menor capacidade de geração de caixa e maior vulnerabilidade financeira, acabam tendo carências reduzidas, em muitos casos limitadas a seis meses. Enquanto isso, empresas que conseguem empréstimos milionários obtêm prazos de carência muito mais longos, chegando a 24 meses.

Surge então uma pergunta inevitável: qual a lógica econômica e social de oferecer menos tempo justamente para quem possui menos capacidade financeira?

Do ponto de vista econômico, isso representa uma inversão completa do princípio da proteção ao pequeno empreendedor. Quanto menor a empresa, maior deveria ser sua proteção financeira, maior deveria ser seu prazo de adaptação e menores deveriam ser seus custos de financiamento. Afinal, pequenas empresas possuem menor capitalização, menor reserva financeira e estão muito mais expostas às oscilações do mercado.

O discurso do programa vende a ideia de inclusão econômica, mas sua operacionalização favorece exatamente quem já possui maior musculatura financeira.

Outro ponto extremamente criticável é a padronização das taxas de juros. O programa praticamente iguala o custo do dinheiro para empresas com realidades completamente diferentes. Uma microempresa familiar, muitas vezes administrada com enorme dificuldade, acaba pagando taxas semelhantes às de empresas com estrutura consolidada, maior faturamento e maior capacidade de negociação junto às instituições financeiras.

Isso fere diretamente o conceito de justiça econômica.

Na teoria econômica moderna, políticas públicas de crédito precisam obedecer ao princípio da equidade. Ou seja: tratar de maneira diferente os desiguais. Empresas menores deveriam ter acesso a juros mais baixos, maior prazo de pagamento e maior período de carência justamente porque possuem mais dificuldade de sobrevivência no mercado.

Mas o que se observa no PRONAMPE é exatamente o contrário.

O sistema financeiro continua privilegiando quem já possui estrutura financeira sólida. O pequeno empresário continua enfrentando burocracia, exigências fiscais rigorosas e dificuldade de acesso ao crédito real. Muitas empresas sequer conseguem aprovação bancária mesmo estando dentro dos critérios do programa.

Além disso, exigir que micro e pequenas empresas estejam totalmente em dia com suas obrigações fiscais ignora a própria realidade econômica brasileira. Grande parte dos pequenos empreendedores convive com dificuldades tributárias justamente pela elevada carga de impostos, pela queda do consumo e pela ausência de políticas públicas verdadeiramente eficientes de apoio empresarial.

Na prática, muitos pequenos empresários acabam excluídos do programa exatamente no momento em que mais precisam de socorro financeiro.

É importante lembrar que micro e pequenas empresas representam uma das maiores forças da economia nacional. São elas que movimentam bairros, cidades, comércios locais e geram milhões de empregos no Brasil. Quando uma pequena empresa fecha as portas, não é apenas um CNPJ que desaparece; desaparecem empregos, renda familiar, circulação econômica e esperança de crescimento social.

Por isso, um programa de crédito destinado aos pequenos negócios não pode funcionar apenas como peça publicitária de governo. Precisa ser tecnicamente justo, economicamente inteligente e socialmente equilibrado.

Se o objetivo real fosse fortalecer os pequenos empreendedores, o programa deveria adotar critérios mais humanos e proporcionais, como:

  • Taxas de juros menores para empresas de menor faturamento;
  • Carência maior para microempresas;
  • Prazos de pagamento mais longos;
  • Menor burocracia;
  • Critérios diferenciados de análise financeira;
  • Incentivos reais à sobrevivência empresarial.

Enquanto isso não acontecer, continuará existindo um enorme abismo entre o discurso oficial e a realidade enfrentada pelo pequeno empresário brasileiro.

No papel, o PRONAMPE parece uma política de inclusão econômica.

Na prática, para muitos pequenos empreendedores, ele se tornou apenas mais uma ilusão vendida como solução.

E isso, infelizmente, caracteriza exatamente o que muitos empresários já perceberam há muito tempo: uma verdadeira falácia econômica travestida de programa de incentivo.

Por Eugênio Oliveira

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